Aprendendo e ensinando uma nova lição


Vivemos tempos estranhos. No começo do ano, a emoção pela vitória dos estudantes do Ensino Médio sobre a tentativa de Geraldo Alckmin de fechar 94 escolas no Estado me fez lembrar o início do romance Um conto de duas cidades, no qual Charles Dickensse refere aos acontecimentos da Revolução Francesa como contraposições simultâneas entre o pior dos tempos e o melhor dos tempos; a época da descrença e a época da crença; e o inverno do desespero e a primavera da esperança. Sim, porque no final de um ano que tinha tudo para ser lembrado, balzaquianamente, como o ano das “ilusões perdidas” devido ao agravamento da crise econômica e social e ao avanço do conservadorismo na sociedade, fomos surpreendidos pelas manifestações da estudantada. Com sua ira santa juvenil, a garotada ocupou quase 200 escolas da rede pública e enfrentou a covarde e brutal repressão da PM, obrigando o governador Geraldo Alckmin a recuar da sua iniciativa autoritária de fechar escolas, medida que as autoridades chamavam, orwellianamente, de “reorganização escolar”.

Cenas de adolescentes sendo intimidados com gás lacrimogêneo, espancados e algemados, mas também mostrando coragem e determinação de resistir à violência policial correram as redes sociais até chegarem às páginas dos jornais e aos telejornais da grande mídia. Esse episódio, mais uma vez, mostrou a total incapacidade do governo do PSDB de lidar com demandas da sociedade, como ocorreu em 2012 na remoção das famílias do Pinheirinho e em 2013 na repressão aos protestos contra as tarifas do transporte público. E pôs a nu, como se preciso fosse, a blindagem da grande mídia aos governos tucanos, seja caracterizando o protesto da moçada como “baderna”, seja minimizando a truculência policial. Ora, como lembrou o site do jornal espanhol El País, o embate entre um estudante de 15 anos, de bermuda, com um policial munido de cassetete e uma arma na cintura não é confronto, mas sim repressão.

Calejados, os estudantes resolveram manter a ocupação de parte das escolas até que o governo desista definitivamente da “reorganização”. Fazem muito bem, porque se enganam aqueles que reconhecem o erro do governo Alckmin de tentar impor a “reorganização escolar” sem diálogo, de cima para baixo, mas ressalvam que a iniciativa é correta e necessária para melhorar o combalido sistema de ensino do Estado de São Paulo. O ex-secretário da Educação, Herman Jacobus Cornelis Voorwald – que pediu demissão depois que o governo resolveu suspender a medida – afirmava que a proposta de alteração na oferta de ciclos escolares era baseada em um estudo da Secretaria que mostrava um melhor desempenho das escolas de ciclo único. O estudo, denominado Escolas estaduais com uma única etapa de atendimento e seus reflexos no desempenho dos alunos, realizado pela Coordenadoria de Informação, Monitoramento e Avaliação Educacional (CIMA), só veio a público, aliás, depois que o jornal O Estado de S. Paulo acionou a Secretaria com a Lei de Acesso à Informação.

Segundo a Fundação Universidade Federal do ABC, neste documento a Secretaria de Educação parte do pressuposto de que o desempenho escolar se deve à gestão escolar, e que, portanto, a simplificação desta é imprescindível. E a principal forma de se obter a simplificação seria a diminuição de ciclos atendidos pelo estabelecimento escolar. Mas não há conexão entre a oferta reduzida de ciclos e a simplificação da gestão ou sequer entre ciclo único e melhoria da gestão escolar. Na cidade de São Paulo, por exemplo, os colégios Bandeirantes, Objetivo, Etapa, Móbile, Vértice, Agostiniano Mendel, oferecem mais de um ciclo de educação; se houvesse relação mais evidente entre a oferta de ciclos e a simplificação de gestão, seria de se esperar uma maior especialização das escolas particulares em ciclos específicos, o que não ocorre, diz o estudo.

O estudo da Fundação Universidade Federal do ABC questiona ainda a falta de embasamento teórico e empírico do documento da Secretaria de Educação; a não-justificação da variável de desempenho (que usa apenas dados de 2014 e do Ipesp); e a ausência de dados estatísticos que comparem as escolas exclusivas e não-exclusivas, entre outras.

Tecnicalidades à parte, o importante é que, neste moderno confronto entre duas cidades, a primeira, a de Alckmin – que encarna o poder – teve que ceder; já a segunda, a dos estudantes, aprendeu, precocemente, a exercer a cidadania. Salta aos olhos a declaração de um garoto dizendo que as escolas impõem medo aos alunos e que eles agora vão exigir liberdade de expressão e a constatação de uma menina de que o movimento os levou a aprender a viver em comunidade e a dividir responsabilidades. Assim, os estudantes renovaram uma velha canção de 1968 e estão “aprendendo e ensinando uma nova lição”.


Professor Giba

Gilberto Alvarez Giusepone Jr. é presidente da Fundação Polisaber.