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“O carnaval de rua impulsiona a criação, o inusitado, o novo”


Publicado pelo Portal Aprendiz:

É com uma revoada de pombas, milho branco cozido e pipoca que Doné Hildelice dá a benção para o bloco afro Ilê Ayiê tomar as ladeiras do bairro Curuzu, em Salvador (BA). Na vila de Cametá, no interior do Pará, o Cordão da Bicharada desfila há quarenta anos com crianças vestidas de araras, botos e outros animais amazônicos ameaçados de extinção. A capital de São Paulo, normalmente cinza, explode em cores com os blocos de carnaval de rua.

Diferente em cada cidade, hiperbolizando a cultura local e as relações entre comunidade e território, o carnaval é uma das festas mais emblemáticas da cultura brasileira. Suas origens remontam ao Brasil do período colonial e práticas como o entrudo, atividade de origem açoriana e brincada pela população afro-descendente escravizada. Foliões lançavam entre si limões de cheiro, águas de seringa e farinha.

Depois de um período de proibição e criminalização dos entrudos, o carnaval de rua renasceu no final do século XIX, com cordões e marchinhas cariocas, os afoxés baianos, e em ritmos tradicionais como maracatu e frevo.

Nos últimos anos, muitas cidades brasileiras têm experimentado o renascimento de seus carnavais de rua: somente em São Paulo, o número de foliões de 2017 para 2018 triplicou, segundo dados divulgados pela prefeitura da cidade.

Em entrevista ao Portal Aprendiz, o geógrafo Alessandro Dozena, autor do livro “A Geografia do Samba na Cidade de São Paulo”, conta como essa festividade promove um alargamento das relações entre cidades e pessoas.

Portal Aprendiz: O carnaval de rua causa uma comoção que chacoalha o cotidiano das cidades. Essa ocupação catártica, que é diferente em cada cidade, muda mesmo que momentaneamente a relação das pessoas com o território?

Alessandro Dozena: Considero que o carnaval de rua possibilita a apropriação dos espaços públicos produzindo sentidos de afeição identitária com os lugares, que são acompanhados de espontaneidade, de criatividade e sociabilidade. Nele, acontece a configuração de certas práticas sociais em que a vida momentaneamente se reinventa, seguindo a lógica do tempo festivo lento, criando-se novos discursos pela subversão da ordem orientadora das práticas sociais “homogeneizadoras”, pela resistência aos poderes que se instituem sobre os territórios, da disciplina, da administração e da burocracia.

Portal Aprendiz: O samba, ritmo chefe do carnaval, sempre foi duramente reprimido pelo Estado. Os blocos de rua também já sofreram repressão. A que se deve essa perseguição?

Alessandro: Os cordões e blocos carnavalescos foram historicamente encarados sob um viés preconceituoso e perseguidos implacavelmente pela polícia, que se esforçava para coibir os atos de “baderna”. Mesmo assim eles resistiram e como “massa de pão” aumentaram após muita pancada. Creio que a maior presença dos blocos de rua evidencia exatamente a prática de resistência à “mercantilice” da vida e a tudo o que tende a torná-la desprovida de magia, rotineira, mecanizada e administrada. A partir dos blocos espontâneos, o carnaval de rua impulsiona a criação, o inusitado, o novo; imprescindível na inspiração de novas realidades, de novos cenários frente às dificuldades impostas pelas circunstâncias da vida em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Curitiba, Fortaleza, Natal, entre outras.

Portal Aprendiz: Especialistas falam sobre como o carnaval de rua coloca a cidade a serviço das pessoas. O que você acha dessa afirmação?

Alessandro: Nos últimos anos, os blocos carnavalescos ganharam força em várias cidades brasileiras, em decorrência da necessidade da população por momentos de expressão e manifestação de relações sociais centradas na espontaneidade e na alegria, quando então é possível voltar e se apropriar das ruas do bairro, das praças públicas ou de outros equipamentos públicos.

No caso da cidade de São Paulo, essa maior visibilidade dos blocos carnavalescos também se deve a algumas iniciativas postas pelos próprios foliões, a exemplo do Manifesto Carnavalista, que desde 2013 tem contribuído para a abertura do diálogo com o poder público, principalmente, com a Secretaria Municipal de Cultura. O carnaval de rua paulistano faz parte da história da cidade. Posso citar a Banda Bandalha criada por Plínio Marcos em 1974, ainda existente com o nome de Banda Redonda.

Algo que sempre me chama a atenção é que o samba apresenta uma dimensão mais ampla que a do carnaval, e está totalmente relacionado com a cidade. Embora a festa carnavalesca tenha sido envolvida pelo espetáculo televisivo que tem como palco o Sambódromo, ela nunca saiu dos bairros e hoje “costura” novas relações sociais a partir de uma movimentação própria que se dá nos “territórios do samba”, motivada pelos blocos carnavalescos, rodas e movimentos de samba, além dos eventos que ocorrem  ao longo do ano nas quadras das escolas de samba.

No caso dos sambistas, é preciso o entendimento de que estes produzem na cidade um território próprio a partir dos bairros, estruturando redes de sociabilidade associadas ao samba.

Portal Aprendiz: Você acredita que os blocos de rua expressam um desejo da população de ter mais momentos de lazer e de ocupação do espaço público?

Alessandro: As atividades promovidas pelos blocos de rua carnavalescos ampliam o bem-estar em áreas carentes em infraestruturas culturais e de lazer. Essas manifestações sempre foram fundamentais para extravasar as amarguras do dia a dia, através de uma experiência coletiva importante para o estabelecimento dos valores culturais de um grupo social particular. E tudo isso reforça os vínculos de pertencimento, identificação e bem-estar com a cidade, suas praças, seus prédios históricos, ruas, parques e monumentos.

Portal Aprendiz: O carnaval de rua também pode ser uma manifestação que expressa diferentes pautas para os brasileiros? Ele materializa, por exemplo, questões políticas ou sobre assuntos como gênero e raça?

Alessandro: O carnaval de rua traz a prática da resistência ou “re-existência” intrínseca a ele. Temos aqui uma “lógica da improvisação” em que o ambiente urbano é apropriado e a espontaneidade permite um contraponto ao artificialismo da realidade por intermédio de uma resistência dada pelo uso territorial e mediada pela energia, pelo corpo, pelos sonhos, esperanças, prazeres e aspirações; em que os sentidos da existência humana podem se sublevar. O princípio conformador do carnaval de rua é o da alegria, assegurando a utopia instantânea e fugaz, de convívio alegre, menos hierarquicamente arbitrário, menos tirânico e mais livre.

O carnaval de rua pode ensinar que os sons e as músicas são motivadores existenciais e estão intrinsecamente conectados aos processos de territorializações, enraizamentos identitários e migrações populacionais. Um dos principais efeitos da globalização foi a divulgação dos sons e estilos musicais de diferentes localidades, contribuindo para a configuração de territórios musicais híbridos. Há inclusive uma significativa tendência pelo revivalismo, com a predisposição e a intenção de reviver estilos musicais e músicas do passado, atualizando-as em um contexto cultural demarcado por características pós-modernas.

A ligação dos ritmos (samba, funk, rock, sertanejo etc.) com as cidades é muito clara, e evidencia a importância de uma escuta ativa na interpretação geográfica dos territórios musicais e das paisagens sonoras em sua significação e sentido social.

É interessante notar que o fenômeno mundial das “músicas de massa” dialoga com o nosso tempo, interagindo com narrativas locais e globais, integrando gostos musicais desterritorializados e ao mesmo tempo territorializados por intermédio das identificações locacionais, que se conectam com as comemorações comunitárias e o apego individual e coletivo aos lugares.

Assim sendo, os territórios musicais não são conservatórios musicais, mas reveladores de uma das faces mais evidentes da globalização: o contato cultural e, por isso, revelam dimensões de raça, gênero e intolerâncias com relação a diferença de posturas e pensamentos. Acredito que a ocupação das ruas brasileiras que ocorre no carnaval promove um deslocamento e uma relativização das polaridades políticas entre esquerda e direita, colocando todos os foliões em uma congregação festiva e emancipatória no sentido da expansão de uma convivência pacífica na diferença.


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