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Carnaval é oportunidade para as crianças ocuparem o território


Alessandro Dozena fonte da reportagem

 

Por Ingrid Matuoka, do Centro de Referências em Educação Integral

Munida de cola e EVA com glitter, Julia enfeita seu chapéu de saci pererê. “Esse Carnaval eu vou dançar, cantar e pular”, diz a menina de quatro anos. Desde que aprendeu a andar, ela participa do bloco “Emílias e Viscondes”, que desfila pelo bairro da Vila Buarque, em São Paulo.

O bloco, realizado há 13 anos pelo Instituto Espaço Arterial, conta com a parceria da biblioteca infantil Monteiro Lobato e de duas escolas públicas da região: a Arthur Guimarães e a Professora Marina Cintra.

Além de festa, este e outros blocos para crianças que acontecem pelo Brasil durante o Carnaval oferecem a oportunidade dos pequenos ocuparem os territórios da cidade e retomarem, mesmo que apenas por algumas horas, o prazer de brincar livremente nas ruas.

“Desde a Antiguidade Clássica a praça é o espaço de convivência e discussão política. Então quando as crianças dominam a praça, também começam a entender que são parte do povo, do coletivo, e que elas devem ser cuidada por todos”, diz Luciana Souza Santos, diretora da escola Arthur Guimarães, para quem o evento também possibilita mostrar a importância de ações individuais, como organização, planejamento e responsabilidade para que ações coletivas possam acontecer.

Kelli Ferreira de Oliveira, que acompanha sua filha Julia nas oficinas de produção das fantasias e durante o bloco, acrescenta que a preparação para a festa é uma oportunidade para as crianças expressarem sua criatividade e autonomia, fazendo suas próprias roupas, tocando os instrumentos e cantando. “Acho importante ela ver que não são só adultos que podem fazer as coisas. Para a Julia, essa não é a praça Rotary, é a praça da Emília e ela se identifica e já tem história aqui”, conta Kelli.

Apropriação do espaço público

É inegável o crescente apelo que os blocos carnavalescos vêm tendo entre a população. Para o geógrafo Alessandro Dozena, isso se dá em decorrência da necessidade de se obter momentos de expressão e manifestação das relações sociais centradas na alegria. “É a partir desses elementos que a população consegue voltar e se apropriar das ruas do bairro, das praças e de outros equipamentos públicos”, explicou o pesquisador do FIT (Festas, Identidades e Territorialidades) em entrevista ao Portal Aprendiz.

Melhor ainda quando estas reflexões e apropriações começam ainda na infância. Gabriella Rocha e Silva, de 19 anos, participou do bloco “Emílias e Viscondes” pela primeira vez aos 7 e desde então não perde um Carnaval ao lado deles. “Eu sempre via o Carnaval como algo para adultos, fosse no sambódromo pela tevê ou pelos blocos de rua que eu também não podia participar”.

Foi nessa época que conheceu o grupo da Vila Buarque e, hoje, trabalha como voluntária no Instituto Espaço Arterial, ajudando a fazer as oficinas de fantasia, de percussão e a organizar a saída do bloco.

Carnaval, uma oportunidade educativa

No ano passado, o enredo do bloco “Emílias e Viscondes” foi sobre o Menino Maluquinho, personagem criado por Ziraldo. Neste ano, o homenageado será Tio Barnabé, das histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo, o lugar imaginado por Monteiro Lobato.

Nas oficinas realizadas nas escolas, as crianças aprendem sobre os personagens, o autor, a literatura brasileira e o contexto histórico do país no momento. Ao conversar com os alunos sobre a história de Barnabé, por exemplo, as crianças também aprenderam sobre a escravidão e o racismo.

A diretora Luciana afirma que aproveitar o Carnaval para estudar história e literatura é um “grande salto pedagógico” em relação a outras atividades carnavalescas que se encerram em si. “As crianças não decoram só as músicas, há uma preocupação pedagógica para que aprendam sobre o que estão cantando”, diz a educadora.

Além disso, as professoras também conversam com as crianças sobre os cuidados com o espaço público, o descarte do lixo e o comportamento em meio à multidão. “No final, ver as crianças ocupando as ruas, convivendo e interagindo com outras crianças e adultos, brincando livremente, e as famílias participando de tudo isso é a melhor parte”, vibra Gabriella.

*Conteúdo publicado originalmente no Centro de Referências em Educação Integral e reproduzido mediante autorização


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